sábado, 18 de dezembro de 2010

Tchaikovsky morreu! (e está se revirando na tumba!)




O Natal está chegando. Imagine só assistir a tradicionalíssima peça natalina “O Quebra Nozes”! Maravilhoso! Wonderful! Wunderbar! Merveilleux!

Comprei os ingressos: quinta fila, corredor central, de frente para o palco. Não queria perder um movimento sequer! Primeiros bailarinos russos do Russian State Ballet de Moscou, Anna Scherbakova e Dmitry Kotermin convidados... Imperdível certo?

Bem, como disse uma amiga, deveríamos mudar o nome de “O quebra nozes” para nossa versão tupiniquim, “O quebra cara”!





Quando estava consultando o site do Teatro Alfa para saber horários, preços, mapa da sala etc, estranhei que não havia nenhuma referência a orquestra que acompanharia os bailarinos. Ingênuamente pensei: bem, a orquestra deve ser composta de diferentes profissionais de diferentes orquestras paulistas (OSESP, OSUSP e outras), por isto não tem um nome.

Bem, chega o grande dia. Estava ansioso, “aportei” no teatro com 1 hora e meia de antecedência. Sabe como é o trânsito de SP, ainda mais com as chuvas torrenciais que tem caído ultimamente, não quis arriscar. É melhor esperar lá no teatro do que dentro do carro, parado na Marginal do Pinheiros, roendo as unhas de raiva!
Melhor esperar no teatro do que no carro no meio da Marginal Pinheiros

Foi minha primeira incursão no Teatro Alfa. Não o conhecia. Achei-o meio “acanhado”, ou seja, pequeno. Bonito, sim, bem cuidado... mas simples. Não importa, o importante é o cenário, a acústica...

Entrei e fui direto ao fosso onde ficam os músicos. Queria ver se tinha algum conhecido nosso (meu e da minha esposa) dentre os músicos da orquestra. Tchan, tchan, tchan, tchan! Não há nada nem ninguém no fosso! Apenas uma cama elástica!
Não há nada nem ninguem no fosso, apenas uma cama elástica

Volto para minha poltrona indignado e comento: - não há orquestra! Vamos assistir uma versão videokê do Quebra Nozes. Playback! Dá para crer?

Versão videokê do Quebra Nozes

Esta peça é famosa por causa da música belíssima de Tchaikovsky. Não terá música ao vivo? Como pode? Bailarinos russos (legítimos) se dignarem a cometer um sacrilégio deste com um conterrâneo, submetendo-se a se apresentar com playback? Só falta ser “fita cassete” ou um disco de vinil 78 rotações todo riscado!


















Comentei novamente que minha vontade era de levantar e ir embora, mas contive-me e pensei em fazer uma limonada com aquele limão. Quem sabe o espetáculo poderia ser bom apesar das nuvens negras que pairavam sobre minha cabeça.

nuvens negras sobre minha cabeça

Caros leitores. Não sou crítico de arte muito menos bailarino, mas entendo de música e entendo de arte. Já tive oportunidade de assistir ao Ballet Bolshoi quando estiveram em SP no Teatro Municipal e assisti em DVD inúmeras apresentações de ballet com diferentes companhias pelo mundo afora. Percebo deslizes, pouca técnica, amadorismo. Vi tudo isto. Até a “orquestra errou” apesar de ser playback. Em uma das 2 únicas danças realizadas pela solista russa a música veio acompanhada por um “chiado” suspeito. Comentei: - o cd vai parar! Imaginem se isto acontece no meio da dança!

O pior é que a platéia insistia em aplaudir a cada salto dos bailarinos, esquecendo-se (ou não percebendo) que por ser playback não dá para parar exceto em alguns locais pré determinados. Conclusão, a platéia aplaudia e os bailarinos não davam a mínima para os aplausos, exceto em alguns momentos onde, no ensaio, haviam combinado de “dar um pause” no CD. Ridículo! Me lembrou uma cena do Cirque de Soleil onde o palhaço coloca um fone de ouvido gigante no microfone e solta um playback da Abertura 1812 também de Tchaikovsky enquanto rege para a platéia uma orquestra invisível. Pelo jeito o pobre Piotr Ilich já está acostumado a ser ridicularizado em público.

Pelo menos no Cirque de Soleil a proposta é uma sátira (veja vídeo abaixo com a cena referida).

video


Os dançarinos russos foram irrepreensíveis. Sentia firmeza nos saltos, a precisão dos movimentos em espelho. As “agarradas” no ar com segurança e sem ter que ficar “arrumando a mão” depois de ter segurado a bailarina em seu salto. O ritmo preciso, dentro do compasso. Até o tutu (pronuncia-se titi e é aquele vestidinho que as bailarinas usam) da Anna Scherbakova balançava exatamente no compasso enquanto ela dançava a “Danse de la Feé Dragée” ou a “Dança da fada do açúcar” em português.
Infelizmente não posso falar o mesmo do elenco nacional. Teve momentos em que eu e minha esposa chegamos a comentar, parecer que estávamos assistindo uma daquelas apresentações de final de ano da escola dos filhos. Uma boa escola, mas...escola. Os saltos das bailarinas não eram precisos; os bailarinos ao pegá-las no ar, depois tinham que ficar “ajeitando a mão” para uma posição mais “confortável de sustentação”; os movimentos em espelho não eram precisos; a altura de pernas e braços em movimentos sincronizados variava de um dançarino para o outro, altura dos saltos e abertura das pernas e insegurança em alguns momentos ficava nítido, principalmente nos saltos.

Já a russa não saltava, ela “flutuava” até os ombros ou mãos de seu par. Isto é técnica, e técnica se aprende com muita prática e obviamente bons professores, com experiência internacional significativa.

E este é o problema do Brasil. Como nossa cultura e nosso governo (ou melhor des-governo) não dá a mínima para a arte (o Lula acha que jogar tênis é coisa de burguês, o que dizer de ballet?) temos que ir aos trancos e barrancos para conseguir algo mínimamente razoável em termos artísticos, mas estamos anos-luz atrás da Europa.

Parabenizo a Companhia de Dança Cisne Negro pela obstinação e pelo empenho, mas não posso dizer que estava bom para “prestigiar o que é nosso”. Não compactuo com a tolerância à mediocridade que se instalou neste país principalmente após a ascenção do PT ao governo. Como brasileiro, torço para que surjam outras Cias. de dança do porte da Cisne Negro para melhorar a qualidade de nossos bailarinos e da arte em geral. Como espectador sinto-me ludibriado. Me venderam gato por lebre, afinal se soubesse préviamente que o ballet seria um videokê, nem que fosse o Baryshnikov ou o Nureyev perderia meu tempo!

me venderam gato por lebre

Bem, agora vou comer minha primeira noz natalina, mas vou quebrá-la a marteladas, pois o quebra nozes este ano me quebrou a cara!

Minha primeira noz natalina a martelada























2 comentários:

  1. Realmente lamentável!!

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Praça do Mercado.