quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Porque não voto no PT - Parte I

INOCENCIA

Eu era uma criança quando ocorreu o Golpe de 64. Desta época a única lembrança de fatos históricos que me marcou profundamente, foi o assassinato do ex-presidente americano JFK e seu enterro que assisti em nossa TV branco e preto a válvulas.


Só fui me dar conta da realidade que vivíamos no Brasil lá por volta de 1969/1970. Nesta época meu pai tinha comprado seu primeiro carro, um Fusca 1969, zero Km, verde folha.


Morávamos em Guarulhos e freqüentávamos a Igreja Metodista da Penha na Rua Capitão Avelino Carneiro. Meu avô foi o zelador desta Igreja. Todas as semanas, se não me engano às quintas-feiras à noite, eu nesta época com uns 10 anos, ia com o meu pai no nosso Fusca novinho, até a Igreja para que ele “mimeografasse” o Boletim Semanal da Paróquia.


Quem não viveu esta época talvez não saiba “what porra is that” mas nesta época não haviam computadores (pasmem, e nós vivíamos muito bem), portanto você tinha que datilografar o texto em uma matriz chamada “stencil” em seguida colocava esta matriz no mimeógrafo que era movido a feijão (ou seja com manivela) e cada nova folha era prensada contra o stencil tornando-se assim uma cópia do texto original. Bons tempos, embora eu prefira os computadores.


Eu adorava ir junto para mover o mimeógrafo. Penso que mais atrapalhava do que ajudava, mas eu achava aquela máquina o máximo da tecnologia. Fazíamos este trabalho na Sala Pastoral. Era uma salinha de aproximadamente 15 a 20 m² no subsolo da igreja. Era lá também uma biblioteca. Meu pai sempre incentivador da leitura e até hoje um leitor voraz, muitas vezes, enquanto ia trabalhando, ia explicando minhas dúvidas ao ler algum trecho de um livro que pegava aleatoriamente na estante da biblioteca.


Fato marcante desta época, e foi quando me dei conta do que estava acontecendo no país.


Ao sairmos da igreja, após preparar os boletins para os trabalhos do domingo seguinte, pegamos nosso Fusca, descemos a Av. Gabriela Mistral em direção à Av. Guarulhos. Naquela época a Marginal do Tietê terminava ali na continuação da Av. Gabriela Mistral (não existia a ponte “Imigrante Nordestino” que hoje cruza sobre o início da Rod. Ayrton Senna). Passávamos sob o pontilhão do trem (que sempre enchia quando chovia muito) e deste trecho em diante era de paralelepípedos.


Exatamente no final da Marginal, antes de cruzarmos a antiga ponte sobre o Rio Tietê, divisa da cidade de São Paulo/Guarulhos, havia uma “blitz” da polícia do exército.


Pararam-nos, fizeram com que descêssemos do carro, perguntaram ao meu pai de onde vínhamos, para onde íamos, quem eu era, revistaram nosso carro, abriram porta malas, tampa do motor, levantaram o assento do banco traseiro, porta luvas etc. Por fim nos liberaram, e eu, achei aquilo o máximo. Queria que sempre fossemos parados pelos “guardas”, naqueles uniformes verde-oliva, com armas, por vezes veículos pesados tais como jeeps ou um blindado, barreiras, lanternas. Enfim coisas que fascinam uma criança. Não me lembro se aquilo deixou meu pai “nervoso” ou incomodado. Ao voltarmos para o carro devo ter comentado com ele “que legal” tinha sido aquela experiência (santa inocência) e perguntei, porque o ”guarda” havia nos parado e revistado nosso carro. Neste momento, tive meu primeiro contato “intelectual” com o movimento de 64. Entendi dentro das limitações dos meus poucos anos de vida, a existência de um país dividido. Uns contra e outros a favor, não sabia muito bem contra ou a favor do que eles eram, apenas que ambos os lados estavam dispostos a matar em favor de sua posição favorável ou contrária a “não sei o que”.


Como livre pensador que meu pai é (assim o vejo pelo menos), em sua vasta biblioteca havia todos os tipos de livros, e me explicando o que ocorrera no país recentemente na tentativa de fazer que com que eu entendesse, ao chegarmos a nossa casa me mostrou um livro de sua biblioteca afirmando que, caso tivéssemos aquele livro no carro no momento que os “guardas” nos abordaram, poderíamos ter sido presos. Fiquei pasmo com aquela declaração e perguntei por que não destruía aquele livro.


Não me lembro exatamente das palavras que ele usou para explicar, mas o sentido que ficou em minha memória foi mais ou menos o seguinte: “-o mundo não é a visão de uma única pessoa, mas sim a somatória das visões de todas as pessoas que viveram, vivem e viverão; destruir um livro pela sua posição política é querer reduzir a realidade e a verdade à versão de um único grupo ou pessoa. A verdade não está neste ou naquele livro, mas sim no conjunto do pensamento da humanidade”. Algo que hoje eu chamo de “consciência cósmica” ou Deus.


Bem, esta foi digamos, minha iniciação ao mundo das idéias.







Nenhum comentário:

Postar um comentário

Praça do Mercado.