segunda-feira, 22 de janeiro de 2007



BBB e “A Caverna de Platão”


“... e as pessoas eram mantidas acorrentadas, de costas para a entrada da caverna, tendo atrás de si uma fogueira que crepitava projetando na parede à frente, imagens...”
(A Caverna de Platão)



George Orwell em seu livro 1984 mostra o lado visível e mais doloroso do constrangimento causado pela observação constante de todas as nossas ações. Menos doloroso e constrangedor, porém muito mais danoso, pois sutil, é o controle disfarçado da mente, tal como representado na alegoria da Caverna de Platão. A mera presença de uma câmera faz-nos mudar o comportamento e alguns são tão seduzidos pela idéia de fama a ponto de almejarem fazer parte do grupo de inquilinos temporários da casa e sujeitarem-se a situações que julgariam impensáveis em sã consciência. O sucesso do programa representa o sucesso da “coisificação” do Homem no seu sentido genérico; não só pela efêmera notoriedade de “produto vendável” obtida durante o programa, mas também pelo ditame de valores, pela criação de paradigmas de comportamentos a serem seguidos, por nós e pelos nossos filhos. Como “produtos de consumo que nos tornamos” (“coisificação”), nossa capacidade de reagir às inépcias do cotidiano é anestesiada; e passamos a julgar tudo normal (assassinato de pais pelos filhos, a fome, os impostos escorchantes, a redução / condicionamento da fé à possibilidade de sucesso profissional e pessoal, os discursos ideológicos etc.); afinal, a vida “é um grande Big Brother” e nosso objetivo é apenas ganhar os 500 mil. Ser eliminado (do BBB ou da vida?) através de uma grande enquête televisiva e pela net, sendo julgado pela turba exacerbada ovacionando “vivas” ao candidato mais forte e urrando “morte” ao derrotado (o polegar para baixo de César), faz parte das regras do jogo. É o circo romano do séc XXI. No lugar da morte, enfrentamos os arquétipos. O personagem de Orwell não perdeu sua capacidade de crítica, apesar de observado. Os personagens da Caverna de Platão interpretam monoliticamente a realidade e recusam qualquer outra versão sobre as figuras que são projetadas na parede; e àqueles que ousam dizer que as figuras são apenas o reflexo projetado pela fogueira atrás, atribuem a pecha de preconceituosos, intelectualóides etc e tal. O filósofo Herbert Marcuse em seu livro “A ideologia da sociedade industrial” afirma que “a ideologia é tanto mais presente quando é negada ou quando não é percebida”. Falamos aos nossos filhos e filhas diuturnamente da importância do estudo; de terem algo na cabeça além de cabelos; que mais importante é o que somos e não o que possuímos. Porém só após o término da apresentação do BBB, pois durante o programa nem pensar; afinal temos que torcer pelo nosso candidato; pelo nosso paradigma de mediocridade, e depois disso, dormir tranqüilos e felizes. Afinal existem “coisas” mais medíocres do que nós!

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